Pretofagia: Uma exposição-cena. Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de janeiro (2019).

—  “Me come, preto.

—  Vou te comer, preta.

—  Me come, preta.

—  Vou te comer, preto”

Uma reflexão em diálogo é o que percebemos em Pretofagia, individual de Yhuri Cruz, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. Diálogos, binarismos, dualidades marcam, assim, lugares a serem horizontalizados. “Nenhuma direção a não ser ao centro”, nos interpela o artista que se interessa por algo historicamente negado ao negro na sociedade brasileira: o protagonismo.

Partindo de um texto escrito em forma de manifesto no ano de 2018, Yhuri Cruz vem tensionando as relações institucionais ao questionar a ausência de negras, negros, negres nos contingentes de espaços de cultura no Rio de Janeiro. “Onde estão os negros?”. A pergunta do coletivo paulistano Frente 3 de Fevereiro continua ecoando e fazendo sentido cada vez que olhamos ao redor.

Em Pretofagia Yhuri ambiciona o mergulho, em si, nas outridades, num devir coletivizado. No texto que será encenado na exposição, o artista reflete que o “corpo subjetivo preto” se faz como “um corpo dentro do corpo”. Resultado de uma residência do artista no CMAHO, durante o processo de trabalho foram convidadxs artistas, performers, psicanalistas negrxs que trouxeram para o debate a racialização em âmbitos mais ampliados, da arte à psicanálise, do teatro ao cotidiano. Branco e preto são as cores predominantes nos trabalhos apresentados. Palco e plateia, corpo e voz, eu e outrx. Ocupamos, hoje, uma posição que nos faz exigir, em visões eurocêntricas, heteronormativas e brancas a racialidade e a dissidência de gêneros como lugares a serem discutidos, problematizados. Achille Mbembe, Djamila Ribeiro, Grada Kilomba e tantas e tantos outrxs já se empenharam em declarar que não podemos mais usar ícones e signos de uma suposta universalidade, pois as bases do pensamento normatizado e iluminista sempre tiveram cor. Precisamos, com isso, “empretecer”, como dirá Jota Mombaça. Justamente, a procura da luz fez com que uma classe específica da Europa, a burguesia, sistematizasse sentidos socioculturais e econômicos em nome de uma suposta “liberdade”. Mas, a “liberdade” de pensamento nos séculos XVII e XVIII desprezava a realidade que estava em franca expansão no mesmo momento, a escravização. A luz que ilumina o corpo e as ideias eurocêntricas, com isso, manteve bases greco-romanas, com seus vestígios em mármores brancos, seus ideais de corpo e gênero, o que acabou por fomentar a desigualdade frente aos porões que concentravam almas de pretas e pretos velhos que adubavam terras longínquas, sequestrados, deslocados por diásporas.

Yhuri Cruz, de modo enviesado, atravessa essas relações. Faz do colorismo da argila e do mármore característica reflexiva entre corpos em pedaços, como são construídos os estigmas (cabelos, bocas, narizes). Louva as almas, em interpretações que partem de experiências em ambientes familiares. Faz do rosto, máscara. Da máscara, escultura. E, assim, dialoga criticamente com a tradição brancusiana. A representação tanto das cabeças de Brancusi, apropriadas de máscaras africanas, quanto da coluna infinita retornam racializadas. Pensemos no jogo de palavras entre Brancusi, escultor modernista, e a máscara Pretusi, proposta por Yhuri e teatralizada pela performance em atos, um dos momentos de Pretofagia. Pensemos, em outro caminho, nas colunas, agora, feitas de latas de 20 litros, amassadas pelo labor, componentes vestigiais das obras com marcas de mãos subalternizadas.

O teatro proposto em atos por Yhuri, discutidos durante a residência no espaço expositivo, pensa o corpo negro inventado “como uma cena”, o que se caracteriza por atravessamentos entre dualidades e coletivizações. As personagens se tornam, se transformam, se recusam, se permitem. Andam em procissão, lutam em cabo de guerra, se exibem. As palavras proferidas em atos retornam, todas, ao corpo, reelaborando as recusas e performando o posicionamento frente ao precipício. A dualidade, nas cenas, ganha certo acento grave. E a singularidade dos gestos tanto se aproxima da catarse, quanto se hibridiza ao transe e à meditação.

Numa rua do bairro de Realengo, a casa é construída em torno de uma pedra. Nela, os ambientes tornam-se imantados pela natureza e por espíritos, orixás, seres de luz, crianças que convivem em plano terreno sem distinguirem seus iguais, seus e suas irmãos e irmãs. Pelos ambientes da casa, chegam conhecidxs e desconhecidxs, expõem suas aflições, oram, se concentram, meditam e se conectam com o espiritual. Ali, o adulto abre e fecha as portas, tateia as areias, e se acostuma a respeitar correntes plurivocais, vindas de um além multicultural, que desde a infância fazem parte do seu cotidiano. Atravessando a cidade, o menino busca seus iguais, seus irmãos e suas irmãs, estranha as ausências, e resolve, assim, questionar o centro, não para criar fronteiras, viver nas margens, mas, ao contrário, para querer ver na escuridão, lançar luz em outros meios de existir. Existir no centro. “Após a diáspora, nenhuma direção a não ser aos centros de si”.

(Marcelo Campos, 2019)

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